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sexta-feira, setembro 14

A palavras loucas orelhas moucas



Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa, José Pacheco Pereira, fazem parte de um núcleo de militantes do partido social-democrata que utiliza o seu capital de imagem para fazer valer perante a opinião pública, os seus pontos de vista relativamente aos caminhos que pensam dever ser seguidos quanto à metodologia de governança a ser aplicada.

Caminhos esses que visam sustentar modelos que defendem os interesses de determinados poderes, chamados de corporativos, que se instalaram no nosso país logo após o processo de democratização com o apoio da própria classe política, pertencente ao arco da governação. Trata-se de um poder tentacular que se infiltrou em toda a malha económica do nosso tecido empresarial, assessorando-se dos mais variados elementos ligados à jurisprudência, fazendo assim com que as leis fossem feitas e aplicadas de forma a salvaguardar as suas posições e tomadas de decisão.

O nosso país que é nos dias de hoje considerado pela imprensa internacional como o país mais pobre da Europa ocidental, foi liminarmente saqueado no que aos fundos comunitários diz respeito, tendo-se visto privado da sua capacidade produtiva. O investimento ficou reduzido à escala nacional dando lugar ao poder hegemónico dos grandes grupos, no abastecimento, na comunicação, na distribuição. O país vizinho fez uma entrada de leão nos nossos mercados com as suas várias áreas de actividade, sobretudo ao nível do comércio e da distribuição; muito contribuímos nós para o “superavit” dos seus anos gloriosos, em detrimento do nosso sector produtivo, no que aos meios e à formação profissional diz respeito.

O Estado transformou-se no maior empregador de que há memória, a administração pública já transpira por todos os poros de tão gorda, a generalidade dos cidadãos depende do Estado para tudo: o sector da saúde, da educação e da solidariedade transportam uma cruz pesada, difícil de carregar…

Está, portanto, fora da minha compreensão entender a posição das chamadas elites políticas, intelectuais, empresariais, perante o presente estado deficitário em que o país se encontra, com a consequente perda de soberania e a falta dos meios necessários à sobrevivência de numerosos extractos sociais. Batemos no fundo, facto resultante de paradigmas desconformes de gestão; a nossa barriga foi pródiga a empurrar os problemas. No entanto, guardámos a capacidade de nos reerguer, podemos e devemos fazer confiança numa equipa inovadora, séria e esforçada de técnicos credenciados para poder proceder à requalificação do “status quo” que orienta o crescimento sustentável da nossa economia. Tenho a certeza de que a liderança do CDS-PP estará ao nível, apesar do ruído, do reconhecimento que é necessário para a mudança que se impõe, fazendo orelhas moucas às palavras loucas da mais díspar proveniência.


quinta-feira, junho 19

Sound bites



Gostei particularmente desta frase, escrita por um militante social-democrata, que ainda há bem pouco tempo apoiou oficialmente a candidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD, através de um blogue criado para o efeito, “O Futuro é Agora”.

«Não consigo imaginar nenhum estado de necessidade patriótica que me levasse a concordar com um
Bloco Central em que o PSD não fosse o partido liderante.»

Esta declaração refere-se a uma notícia do Público, em que Marcelo Rebelo de Sousa lança uns soundbytes sobre uma eventual coligação do PS com o PSD para as próximas eleições, baseado numa afirmação de Manuela Ferreira Leite em que esta "admite que a situação do país poderia impor acordos de regime" entre social-democratas e socialistas, naturalmente. Aliás, esta opinião não é inédita; sempre foi a visão partilhada por Cavaco Silva, sobretudo na época conturbada do partido, então presidido por Marques Mendes e que só muito a custo aceitou participar nas conversações que levaram à assinatura do Pacto para a Justiça, mais tarde denunciado pela liderança que lhe sucedeu. Aliás, chego até a pensar que Marques Mendes foi medalhado no 10 de Junho, talvez mais por demérito do que propriamente pelos serviços que prestou ao país. As condecorações do 10 de Junho abriram, assim, novo precedente: a condecoração a título de prémio de consolação.
Mas, ainda voltando à declaração feita por
Vasco Campilho, pergunto-me e não consigo chegar a uma conclusão: porque é que este ilustre militante do PSD – e como este muitos outros - acha que o seu partido deveria liderar uma eventual coligação entre o PS e o PSD, num Bloco Central (de interesses) revisitado, quando o futuro do sentido de voto aponta claramente para uma nova maioria do partido socialista ou perto disso.
Não há dúvida que os estrategas do PSD tudo têm feito para limpar a imagem do partido dos recentes fracassos, que tiveram início com o abandono de Durão Barroso e, posteriormente, com a recondução de Santana Lopes na liderança do partido, em quem foi depositada toda a confiança para de novo se recandidatar ao lugar de primeiro-ministro.
Esta questão, e muitas outras da mesma natureza, daria matéria para uma tese de um qualquer doutorando em ciência política ou simplesmente versada sobre o estudo do comportamento humano à luz da psicologia e da sociologia dos costumes.

terça-feira, junho 10

O Estado democrático dos interesses corporativos


Perante a presente escalada de protestos ao nível de sectores laborais tão importantes como sejam o dos transportes e o das pescas, penso que o Sr. Primeiro-ministro não terá outra solução senão provocar a dissolução da Assembleia através da demissão do presente executivo.
A greve dos transportadores é uma greve eminentemente política.
A própria Antram não foi favorável à sua realização. Os motoristas das empresas de transportes foram forçados a aderir, apesar de não estarem a ser directamente afectados pelo aumento do custo dos combustíveis; os seus vencimentos estão a ser pagos atempadamente, segundo afirmações feitas, e não desmentidas, pelos seus empregadores, através da comunicação social.
Nesta fase em que o governo tudo tem feito para reduzir o peso do Estado na economia, afectando essa redução ao corte das despesas por ordem de prioridade, é exigido, por parte das associações dos trabalhadores independentes, que se retome a política da subsidiação, através do nivelamento do custo do gasóleo com o praticado em Espanha e do não pagamento de portagens. Só que, e por mais ignorantes que sejam os "mandantes" dessas associações, a economia espanhola já há muito que apresenta superavit e a portuguesa começou agora a respirar, por força da lufada de ar fresco que se traduziu na formação do governo liderado pelo actual Primeiro-ministro.
Por isso, eu penso que os portugueses têm que, de uma vez por todas, decidir nas urnas qual a solução governativa que pretendem para o futuro de Portugal; aquela que eles acham capaz de ir ao encontro de todas as suas reivindicações e, simultaneamente, contribuir para o desenvolvimento económico e social do seu país, no contexto pró-europeísta do termo. Se pretendem um governo maioritariamente comunista, bloquista, socialista, chefiado pelo poeta Manuel Alegre e alimentado pelas hostes pró-soaristas, ou a terceira via que saiu vencedora das recentes eleições social-democratas, representada pela ex-Ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite.
É que os portugueses e a classe política, em particular a que acabou de subscrever as moções de censura a este governo, têm que, de uma vez por todas, deixar de ser cínicos e assumir as suas posições políticas com responsabilidade.
Por outro lado, José Sócrates tem o direito de ver relegitimada, através do voto, a confiança que os portugueses nele depositaram - e continuam a depositar, conforme ditam as sondagens –, para que a sua auto-determinação e convicção nos resultados obtidos pelas suas políticas, não venham a ser afectadas, deitando a perder todo o esforço até aqui desenvolvido, recorrendo à força se preciso for, através da participação dos operacionais militares, não só no sentido de assegurar a ordem pública, mas também no de garantir o bom funcionamento das instituições que presidem à manutenção do nosso Estado de direito.
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domingo, janeiro 20

Défice democrático


Comparo a nossa democracia à existência precária de um albatroz. Sem termos conseguido mudar as regras do jogo, a nossa democracia coexiste na base de um poder paralelo que se impôs no Estado Novo e que se tem vindo a afirmar, ao ir cimentando a sua influência junto do poder institucional, do poder corporativo e, porque não, também junto de alguma “sociedade civil” que nada quer ter a ver com a política, mas que vai hostilizando os nossos governantes ao ponto de lhes toldar a razão, a liberdade de movimentos e a própria noção que eles têm da realidade. A passada semana foi particularmente fértil em inéditos alimentados pela acção governativa, que nos faz pensar se o presente executivo está a ir por bom caminho em algumas das frentes de acção que se propôs instituir e que combinam com os ataques cirúrgicos a que temos vindo a assistir nos últimos dias, nomeadamente no que diz respeito à política da saúde.

O encerramento compulsivo de um grande número de unidades hospitalares, centros de saúde e maternidades, fará parte de uma política de reforma do sector da saúde devidamente fundamentada em estudos que se tenham debruçado não unicamente na vertente economicista do problema, mas também na social?

As medidas a serem levadas à prática e vaticinadas pelos respectivos estudos, terão salvaguardado as posições dos vários agentes envolvidos, desde logo os médicos e o pessoal hospitalar, já para não falar dos utentes que a esses não se lhes dá voz activa?

Será que os hospitais centrais concelhios ou distritais têm capacidade física, operativa e humana para responder, em condições mínimas aceitáveis, ao enorme afluxo de doentes que, entretanto, começaram a assomar às suas instalações?

E qual é o papel da actividade empresarial privada na oferta de serviços de saúde às populações do interior: traduzir-se-à por “quem pode pagar vive, quem não pode pagar morre”?

E por último, o governo a viver em autêntico estado de deslumbre, caucionado pelo poder que lhe foi conferido pela maioria absoluta, terá ideia das repercussões que poderão resultar da aplicação desta política? Outro acontecimento inédito foi a audição do senhor governador do Banco de Portugal em sede de comissão parlamentar, sobre as irregularidades no BCP. Protegido pelo segredo profissional pouco ou nada esclareceu os seus inquiridores, tendo saído com um sorriso nos lábios de “dever cumprido”, naturalmente escudado pelas “costas quentes” do poder institucional. A tudo isto vamos assistindo pacificamente, debaixo de uma ou outra ameaça de um eventual ataque terrorista, qual cereja destinada a dar cor ao bolo da incerteza da nossa própria sobrevivência em condições mínimas de dignidade e respeitabilidade, por parte dos poderes políticos que nos governam.

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Revisão eleitoral autárquica em agenda


Relativamente aos vários projectos de lei recentemente aprovados na Assembleia da República, com os votos favoráveis do PS e do PSD, sobre a revisão da lei eleitoral autárquica, fica a sensação de que estes diplomas têm como objectivo favorecer aquele que virá a ser o futuro presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 2009, ao que tudo indica, o Dr. António Costa.
Um projecto de lei “cozinhado” com a complacência desta nova presidência itinerante do PSD, que suprime o essencial daquela que deveria ser uma revisão da lei autárquica projectada para garantir o crescimento económico das regiões, servindo os interesses e as necessidades básicas das populações, por sua vez afastando os agentes corruptores que pululam em redor dos municípios, afogando-os em dívidas, sujeitando-os à política onerosa da mera obra de benfeitoria, infundada e superficial, deleite para a vista, inutilidade prática.
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O anterior projecto de lei da delimitação de mandatos, permanece na gaveta. Os actuais autarcas, presidentes de câmara, poderão continuar a encabeçar as listas eleitorais, fazendo-se eleger ad eternum, vendo ainda os seus poderes reforçados, na medida em que o executivo passa a ser composto por uma maioria absoluta de vereadores, provenientes da lista vencedora.
Iremos, assim, ter muitas Fátimas Felgueira, com poderes reforçados legitimados, a depauperar as finanças dos municípios em benefício próprio (vide pagamento de honorários principescos a advogados), ainda durante muito mais tempo.
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No essencial, estes projectos de lei poderiam visar uma maior racionalidade do processo eleitoral autárquico: o novo modelo prevê a eleição dos órgãos executivos, incluindo o presidente de câmara, através da lista mais votada para a Assembleia Municipal.
O PS, partido socialista, que, inicialmente, previa a eleição da totalidade do executivo camarário com base na lista mais votada, excluindo, portanto, qualquer representação no corpo de vereadores dos restantes partidos, acabou por subscrever a proposta do PSD, partido social-democrata, que prevê que os partidos da oposição continuem representados no respectivo executivo camarário.
Com base num projecto alternativo apresentado pelo CDS/PP, a proposta deste partido é de longe a que terá a capacidade de reunir maiores consensos, fora do bloco central de interesses, uma vez que assegura a representatividade, em termos proporcionais, dos partidos da oposição na nomeação de metade dos vereadores, e dando ainda a possibilidade ao presidente eleito de poder recrutar vereadores fora da sua lista, no âmbito da formação de coligações pós-eleitorais, privilegiando-se, deste modo, a capacidade técnica e profissional do órgão executivo, em detrimento da selecção com base na óptica do compadrio e da clientela.
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Com os votos favoráveis do PS e do PSD, a aprovação da referida lei estará, à partida, garantida. Resta-nos, pois e mais uma vez, confiar no bom senso do Presidente da República, no sentido de vetar esta lei inconclusiva, devolvendo-a à Assembleia e exigindo que a sua redacção venha a ser alargada de modo a melhor servir o interesse das populações no contexto de uma gestão moderna criadora de valor, com base num referencial assente em critérios de eficiência, eficácia e obtenção de resultados.

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sábado, janeiro 12

A solução Portela +1


À semelhança de muitos ilustres cidadãos deste nosso pequeno burgo, também eu já me pronunciei aqui e aqui, sobre a construção do novo aeroporto internacional de Lisboa.
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A solução Portela + 1, é decididamente a solução que eu não defendo e muito gostaria de saber o que move a Associação Comercial do Porto a pronunciar-se sobre esta matéria, a não ser os habituais interesses económicos que ladeiam a escolha do local de implantação do novo aeroporto.
Esses interesses são quanto a mim legítimos desde que a anteriori não pretendam interferir na referida escolha, cuja decisão só caberá ao governo, "assessorado" pelos respectivos estudos técnicos sobre a sustentabilidade do projecto, designadamente nas áreas ambiental e urbanística - assim como também caberá ao governo decidir se a referida construção deverá ser faseada, se o aeroporto da Portela deverá ser desactivado e/ou a empresa ANA privatizada.- A decisão é uma decisão política e não deverá, quanto a mim, ser tomada com base em critérios exclusivamente economicistas, visto tratar-se de uma grande infra-estrutura que tem por base dois aspectos fundamentais: a previsão do aumento em larga escala do tráfego aéreo e respectiva circulação de pessoas e bens a muito curto prazo, e o período de conservação/utilização que se espera venha a ser de várias décadas.
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Aspectos bastante positivos sobressaíram de toda a polémica gerada à volta deste tema, a começar pela mobilização da chamada “sociedade civil”, concretamente na pessoa do Sr. Francisco Van Zeller, presidente da CIP, que mobilizou os meios necessários para a realização de um novo estudo que terá servido de base à apreciação favorável, por parte do LNEC, da nova localização, a de Alcochete. Relevante foi igualmente a participação activa em todo este processo, por parte de professores catedráticos e docentes universitários que se empenharam na presente causa, e que, independentemente de terem ou não sido movidos por interesses de vária ordem, ajudaram a contribuir para o enriquecimento e consolidação do nosso sistema democrático, através das regras básicas da salutar convivência.
No entanto, o aspecto mais positivo foi o facto de o senhor primeiro-ministro, pressionado ou não, (e aqui faço referência à intervenção do senhor Presidente da República que, desde o início, abraçou esta causa) ter mostrado uma certa dose de humildade perante os portugueses; ter chegado à conclusão de que as posições unipessoais, mesmo que subscritas pelos altos dirigentes de cargos públicos, podem deitar a perder o saldo positivo daquele que tem sido sinónimo de um bom projecto de governação, ultrapassando o domínio do racional para passar ao da pura obstinação.
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Não posso, no entanto, deixar de recordar os indecifráveis milhões gastos, ao longo das várias legislaturas, em estudos que indicavam a construção do novo aeroporto na OTA, e estabelecer um paralelo com as discussões acaloradas e não chegadas a bom termo, entre o Ministério das Finanças e as Confederações de Trabalhadores, sobre o aumento da taxa salarial para o corrente ano, traduzindo-se a divergência de posições numas insignificantes décimas, valor já largamente ultrapassado por aquela que se prevê vir a ser a subida da taxa de inflação para o mesmo período, como consequência do aumento galopante a que temos vindo a assistir do preço dos combustíveis fósseis.
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quinta-feira, novembro 22

Desinteligências ao mais alto nível


A concentração de poderes no Estado expressa através da maioria absoluta das intenções de voto num único partido, pode ser benéfica sempre que se pretendem impor medidas ou levar à prática reformas estruturantes que de outra forma não seria possível, por falta de consensos de entre as restantes forças politico-partidárias.
Mas, a concentração de poderes também tem o seu lado negativo, que é precisamente a tentação de extrapolar esses mesmos poderes para além da esfera de competências do órgão do Estado que representa o Poder Executivo.
Por um lado, pretende o actual governo a “funcionalização” do poder judicial ao tentar integrar os juízes e os magistrados do Ministério Público no regime geral de progressão de carreiras da função pública, sob tutela do poder político, o que, até ao momento, era da competência do Conselho Superior da Magistratura, órgão independente do poder político. Encontramo-nos, pois, na iminência de poder haver lugar a uma sublevação por parte da magistratura do Ministério Público e por acréscimo da própria magistratura judicial, uma vez que este diploma aprovado em Assembleia (unicamente com os votos favoráveis da maioria socialista), mas ainda não promulgado, põe em causa a independência dos juízes face ao poder político.
A configuração de um cenário desta natureza poderia legitimar uma tomada de posição por parte do Presidente da República, no sentido da dissolução do presente executivo, ou, eventualmente, forçar a demissão do actual Primeiro-Ministro, exigindo-se a sua substituição.
Por outro lado, começa a ser bastante criticável e eticamente passível de contestação que um ex-candidato à presidência da República se tenha arrogado poderes de alto comissário para a política externa nacional, colocando-se a ele próprio e à sua Fundação ao serviço da representação do Estado português, no que se refere ao dossier das negociações levadas a cabo em três vertentes distintas: entre o presidente da Venezuela e a Galp Energia, entre o presidente da Venezuela e a comunidade luso-venezuelana e entre o presidente da Venezuela e o rei de Espanha mais o clube dos empresários de Madrid. O referido dossier negocial teve a chancela da intermediação do Dr. Mário Soares que Portugal agradece. Mas os cidadãos portugueses agradecem igualmente ao Dr. Mário Soares que dê por terminados os seus serviços de “consultadoria diplomática”, uma vez que é ao tecnocrata, Prof. Cavaco Silva, eleito democraticamente o mais alto magistrado da nação, que compete representar o país, interna e externamente, de acordo com os poderes que lhe foram conferidos por sufrágio universal.
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segunda-feira, outubro 29

Sobre referendar a inevitabilidade


(...) A reivindicação do referendo é a única maneira de pegar nas poucas pontas de fio que sobram para um debate sobre a Europa, pobre, inquinado, desigual, ambíguo que seja, mas mesmo assim o único possível. O referendo dá um empowerment às pessoas comuns que nada mais dará, e esse "poder" é o único que as pode interessar pelas questões europeias, que as pode levar a prestar-lhes alguma atenção. Pedem-lhe o voto no meio da indiferença geral, mas mesmo assim são interpeladas. Muitos não farão nada, continuarão indiferentes, outros farão. Haverá mil razões impuras para o fazer, até porque o referendo está por excelência cheio de razões impuras, mas será que essas razões não têm a ver com a Europa? O argumento dos que dizem que os referendos europeus tendem a concentrar razões de insatisfação contra os governos que não têm nada a ver com a Europa, para mim não colhe. Os 200.000 manifestantes levados pela CGTP e pelo PCP estão a pronunciar-se sobre a Europa à sua maneira. Os que votariam contra Sócrates por causa do centro de saúde estão a pronunciar-se sobre a Europa, porque o aperto para o controlo do défice é uma política "europeia". Hoje quase tudo na governação tem a ver com a Europa, por isso, se se votar por razões impuras de política interna, também estamos a votar no modelo de uma política que é moldada por decisões europeias. Ninguém tem ilusões, a não ser os europeístas extremos, de que existe ou é possível existir uma "consciência europeia". Mas acredito, com a fé dos agnósticos, que talvez seja possível melhorar a "consciência" dos portugueses face à Europa e que isso é melhor que nada. Sem referendo é que é mesmo nada, estamos condenados à impotência cívica. (sic)
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Este é um belo texto de José Pacheco Pereira. Mas a sua inevitável utilidade é o emolduramento e a consequente afixação numa qualquer parede de uma dada biblioteca.
Que me lembre, o Dr. Pacheco Pereira, agora preocupado com a consignação do “empowerment às pessoas comuns”, termo que decerto não fará parte do léxico das classes sociais a que pertencem, sempre que se dignava evocar o cidadão comum, nos sucessivos programas televisivos em que tem participado, fazia-o num tom depreciativo (logo secundado pelo seu compagnon de route Lobo Xavier), concedendo-lhe um atestado de menoridade, ao declará-lo incapaz do exercício de qualquer direito cívico em sã consciência e com conhecimento de causa.
Nós sabemos que a opinião dos políticos é variável consoante os fins que pretendem atingir, mas isso não deveria justificar abastecer-se no quadro das carências sociais desses mesmos cidadãos para pretender virá-los contra si próprios, num futuro em que por via de uma assertiva prepotência cívica, lhes estivesse reservado o grau zero da sobrevivência humana e o forçoso isolamento de um estado de progressivo desenvolvimento económico e social. Que é o que aconteceria num cenário de descontrolo do défice orçamental, implicando directamente a suspensão do programa de reformas em curso.
Desonestidade intelectual é como me é dado interpretar este posicionamento ideológico de José Pacheco Pereira. Debata-se, mas debata-se a inevitabilidade da entrada em vigor do Tratado e não a sua dispensabilidade.

sexta-feira, outubro 26

O Quiproquo das escutas telefónicas


Considero um atentado directo à inteligência do Sr. Procurador-Geral da República, à inteligência dos cidadãos em geral e à dos cidadãos mais esclarecidos em particular, a solução que foi encontrada pelo Dr. Jorge Coelho para justificar as afirmações menos politicamente correctas da entrevista dada pelo senhor procurador ao semanário Sol.
A simples cogitação de que possam ser efectuadas escutas telefónicas a altos magistrados da nação através da mera aquisição, por um qualquer cidadão, de um equipamento que possua propriedades para o efeito, parece-me uma razão bastante parca, sem substância do ponto de vista argumentativo, que já não convence ninguém.
Criticar as afirmações proferidas pelo senhor procurador é uma forma de perseguição política, aliás como aconteceu com o anterior procurador, Dr. Souto Moura, cujos ataques à sua conduta profissional pelo poder político instalado, só serviram para fazer correr rios de tinta, na medida em que pontuou o bom senso do presidente da república e o apoio incondicional que lhe foi dado pela grande maioria dos cidadãos que nele depositavam a sua confiança.
Mas voltando às dúvidas bastante pertinentes do senhor procurador, sobre se está ou não a ser “escutado”, e que tanto incomodaram os políticos profissionais deste país, elas não são mais do que a constatação de uma realidade que está hoje em cima da mesa e que diz respeito ao novo modelo securitário que foi criado durante a presente legislatura, no âmbito da reforma do sistema de Segurança Interna e que sai fora da alçada dos órgãos institucionais do Estado que habitualmente tutelam essa área de competência, tendo passado a sua direcção a ser assegurada directamente pelo gabinete do senhor primeiro-ministro, portanto fora da área do quadro jurídico institucional previsto no âmbito do funcionamento do Estado de direito.
Tem, deste modo, fundamento a existência de uma tentativa de “dissecação” ou esvaziamento de poderes de um órgão do Estado, constitucionalmente autónomo dos restantes órgãos do poder central, e, objectivamente, o garante da legalidade democrática da função jurisdicional.
A mudança em Portugal com vista à instauração de um regime democrático pleno que não se esgota no actual modelo de democracia parlamentar, predestinada ao fracasso pelo cada vez mais ineficaz combate às vicissitudes de uma sociedade descaracterizada e egocêntrica, é hoje um dado adquirido, sendo disso prova inegável a boa receptividade que forças políticas extra-partidárias têm vindo a usufruir por parte dos cidadãos eleitores, nos recentes actos eleitorais.

segunda-feira, setembro 17

Lisboa recebe Dalai Lama


Duas notas positivas para a semana política que acaba de terminar.
A primeira tem a ver com o encontro inter-religioso promovido pela comunidade islâmica portuguesa que está de parabéns pela iniciativa em receber na sua mesquita o líder espiritual Dalai Lama, prestando-lhe a devida homenagem na qualidade de líder religioso de uma confissão com, cada vez, mais seguidores em todo o mundo. Evidentemente, que aqui funcionou a diplomacia, agora com o Dr. Mário Soares a presidir à Comissão da Liberdade Religiosa, o qual entendendo-se por político reconhecidamente laico e republicano, não deixa de ser uma figura bastante considerada nos meios diplomáticos internacionais.
Não obstante, são os representantes da confissão islâmica em Portugal, que merecem o devido destaque, por haver protagonizado aquele que me parece ser um acontecimento inédito neste nosso mundo conturbado, e que foi o de juntar todas as confissões religiosas num dos locais mais emblemáticos para o povo islâmico, num mesmo patamar de entendimento, cada uma celebrando o seu próprio acto de fé em estreita comunhão com os dos demais, numa manifestação de puro altruísmo e desprendimento, de grande significado simbólico, a servir de exemplo aos actuais actores da política, líderes de coisa nenhuma.
A segunda nota positiva vai para o Dr. António Costa, como não podia deixar de ser.
Enquanto Ministro da Administração Interna, e por altura daquele “verão fogoso” do ano de 2005, em que o país ardia de norte a sul, o Dr. António Costa licenciou-se na prática da extinção de fogos, encontrando-se sempre no sitio certo à hora certa. Foi o que aconteceu com a recepção dada a Dalai Lama na Câmara Municipal de Lisboa, correspondendo, assim, ao que o governo esperaria dele, naquele que foi o seu segundo acto de manifestação da fidelidade partidária, como compete a um militante que ama e “dá a vida” pelo seu partido; o verdadeiro espírito da militância política partidária que, infelizmente, se tem vindo a descaracterizar.
O Governo e a Presidência da República tomaram a atitude certa ao não receberem oficialmente esta individualidade. A nossa actual situação económica não se compadece com eventuais manifestações de solidariedade, mesmo que no âmbito da defesa dos direitos humanos, cabendo à União Europeia, pela mão dos seus legítimos representantes, tomar essa iniciativa em nome de todos os Estados que dela fazem parte.
Os actos de heroísmo ficam para com os autores das várias críticas avulsas que, sobre esta matéria, fizeram ao governo. A sua experiência em termos da governação de um país é proporcional à imaturidade política e intelectual que revelam, por via dos seus múltiplos pareceres, contraditando a posição oficial do governo que, neste caso, nunca deveria ser passível de réplica, atendendo à especificidade e delicadeza do tema.

sexta-feira, setembro 14

Prioridades no investimento


A visão catastrofísta do Dr. Medina Carreira sobre a economia portuguesa, sobre as políticas governativas, sobre os políticos, sobre os partidos, sobre as instituições públicas, já deveria começar a incomodar-nos um pouco, apesar de se tratar de uma figura pública cujas análises, do ponto de vista económico, de um modo geral, costumam encerrar verdades inquestionáveis.
Em entrevista dada ao Diário Económico, e nas vésperas do lançamento do seu livro “O Dever da Verdade”, Medina Carreira tece críticas às prioridades do governo em matéria de investimento na área das grandes infra-estruturas, como seja a construção do novo aeroporto na Ota ou o comboio de alta velocidade – TGV.
Dando como exemplo os países ricos do norte da Europa: a Dinamarca, a Suécia, a Finlândia e a Irlanda, para justificar a desnecessária construção do TGV, exemplifica de uma forma minimalista os benefícios futuros a retirar da construção dessa infra-estrutura – ganhar meia hora para o Porto ou quinze minutos para Coimbra -, quando, na realidade, o que está em causa é ligar o nosso país ao centro da Europa, através de um meio de transporte alternativo ao da navegação aérea, não acessível a todas as bolsas e de uma maior "exigência protocolar”. A não ser que o Dr. Medina Carreira esteja a pensar na plausibilidade da criação do tal estado ibérico destinado à absorção de Portugal, em que todas as grandes infra-estruturas fossem deslocadas para aquela que viria a ser a “capital estadual” – leia-se todas as grandes cidades espanholas em potencial -.
Os mencionados países nórdicos por serem economicamente independentes, por não terem uma cultura mediterrânica e por razões geneticistas, estão muito mais próximos dos países que fizeram parte da ex-União Soviética, Rússia incluída, do que de uma Espanha, de uma França, de uma Alemanha, de uma Holanda ou de uma Itália, como é o caso português.
A Dinamarca que é o único país com ligação por terra ao coração da Europa, tem mostrado estar muito mais interessada na aproximação aos países do bloco nórdico do continente europeu, com os quais mantem relações estreitas e pontos de vista em comum, no que diz respeito à partilha dos grandes projectos que envolvem as redes rodoviárias, no pressuposto de que essa expansão se faça de baixo para cima e não de cima para baixo, excepção feita à área territorial adjacente composta pelo Reino Unido.
“Semear para colher” deveria ser o lema de qualquer governo que tem como meta promover o desenvolvimento do seu país numa óptica de equidade em relação aos países que se encontram acima da linha de água do contexto europeu das Nações. A minha geração e a dos que me sobreviverão, não pode ser culpabilizada pelos efeitos que resultam de um século da história em que predominou ora uma politica de ditadura ora de “ingovernabilidade”, e/ou alternadamente de “desgovernabilidade”.

terça-feira, agosto 21

Ecoterrorismo


O Sr. Ministro da Administração Interna acha que à invasão de propriedade alheia nos termos do incidente ocorrido neste fim-de-semana, num campo de cultivo em Silves, não poderá chamar-se de ecoterrorismo, uma vez que não envolveu armas de fogo ou armas brancas, mesmo que esses actos tenham sido praticados em nome do “interesse público”, como foi, desacauteladamente, afirmado pelos respectivos activistas beligerantes.
Por muito menos, já estudantes portugueses foram presos na Letónia, acusados de profanação da bandeira nacional daquele país.
Esta ingerência em propriedade privada traduziu-se num acto de puro vandalismo e teve como único objectivo testar a operacionalidade das associações de jovens desocupados que, no fulgor da sua juventude são levados a defender as causas mais estapafúrdias, sendo liderados por outros grupos com interesses politico-partidários, cujo objectivo é gerar a instabilidade social e política, através de mandatos explícitos de manifestações de má fé, lesivas da integridade moral e patrimonial dos cidadãos.
Por detrás desta iniciativa, esteve seguramente o apoio logístico de um partido político que, na minha opinião, se terá estendido à própria força policial que, como é sabido, de norte a sul do país, nem sempre professa a mesma doutrina, no que diz respeito à leitura, aos métodos e ao regime sancionatório que aplica.
A reforçar esta minha afirmação, está o facto de só terem sido identificados seis indivíduos, num total de, pelo menos, sessenta, por não serem portadores de documento de identificação, conforme foi noticiado. Muito a propósito aliás, num país de brandos costumes como é o nosso, em que alguém sem identificação, que se envolve numa desordem, não é, de imediato, conduzido ao posto policial, como acontece no estrangeiro, em todos os países civilizados.
Por outro lado, os que foram identificados, também não nos dão garantias de poderem ser criminalizados pelos seus actos de vandalismo. O nosso Código Penal é exemplar quando se trata de aplicar penas a autores de blogues que ousam ofender a dignidade dos altos dignitários da Nação, mas ponderado sempre que a aplicação da pena se cruza no caminho de uma circunstância atenuante. A falta da tomada de medidas enérgicas a que nos habituámos, perante estes atentados ao bem-estar público, e a consequente permeabilidade da nossa jurisprudência, serão sempre factores de descrédito das nossas instituições, nos juízos que se estabelecem além fronteiras. Daí que o nosso índice de respeitabilidade se encontre sempre em baixa, sem que contra isso, nós, na qualidade de meros cidadãos indefesos, nada possamos fazer.

segunda-feira, julho 30

Um precedente perigoso

A festa do Chão da Lagoa na nossa muito estimada Ilha da Madeira, foi, desta vez, abrilhantada pela presença do secretário-geral do piessdê e animada pelo principal leitmotiv dos últimos tempos do maior partido da oposição, a liberdade de expressão, personificada pelo caso Charrua.
O Engº Sócrates não precisará de lições de governabilidade, mas, na minha opinião, abriu um precedente perigoso quando, indirectamente, terá aquiescido a que se procedesse ao arquivamento do referido processo. Esta decisão tomada pela Sra. Ministra da Educação, configurou um sinal de fraqueza por parte do governo, imediatamente aproveitado pelo PSD, que logo exigiu a demissão da Directora Regional e a recondução no cargo do Sr. Charrua.
Ipsis verbis, e num cenário em que, sempre que se confirmar, existirem atitudes injuriosas por parte de funcionários públicos, no exercício das suas funções, em relação a altos cargos do poder institucional, na opinião do PSD, deverão ser essas mesmas atitudes despenalizadas, e desobrigadas de qualquer sancionamento de ordem disciplinar.
Esta posição assumida por um partido político que joga no team da alternância do poder, servirá sobretudo a causa política, mas colocará sob suspeita a defesa dos valores de idoneidade, responsabilidade e coerência que deverão nortear os princípios fundamentais de qualquer partido que prossiga na senda do poder.
Em política, não deveria valer tudo, e o presente executivo que muito bem iniciou uma campanha de moralização, destinada à Região Autónoma da Madeira, supostamente orientada para a imperiosidade do cumprimento de uma gestão criteriosa, de aplicação cirúrgica, dos dinheiros públicos, não deveria sequer estar preocupado com a observância da lei da IVG naquele território autónomo, partilhando eu da opinião do Sr. Presidente da República, em que caberá aos madeirenses, que habitualmente elegem o seu presidente e respectivo governo, reclamar junto das instâncias judiciais competentes, a aplicação da referida Lei, se assim o entenderem.

sexta-feira, julho 27

Os espasmos do moribundo



Artido de Opinião
de José Miguel Júdice

(Público de 27.07.2007)


O meu querido Francisco Lucas Pires disse um dia que em 11 de Março de 1975 uns aviões dispararam sobre um quartel e, em vez de prenderem os aviadores, nacionalizaram a banca. Foi desta ilogicidade tão típica da alma portuguesa que me lembrei a propósito da saga da sucessão de Marques Mendes a si mesmo. Vejamos então porquê. Nas eleições municipais de Lisboa, o PSD sofreu uma pesada derrota. Não foi só, nem tanto, ter perdido as eleições na principal autarquia portuguesa (dando a Sócrates a primeira possibilidade de festejar um sucesso em mais de dois anos), mas sobretudo o facto de seguramente a maior parte dos que votaram em Carmona o ter feito contra o PSD, sendo certo que muitos desses - conheço vários - são tradicionalmente votantes deste partido.Como resultado desta derrota clamorosa, Marques Mendes resolveu submeter-se a votos. Até aí, tudo bem. Acto lógico e preventivo, como a boa medicina profiláctica sugere. O que seria de esperar era que, pelo menos os sectores mais esclarecidos do PSD e os mais independentes dos seus quadros, aproveitassem a ocasião para dizer alto o que em pequenos grupos ou em voz baixa afirmam: Marques Mendes não tem a mais pequena hipótese de ganhar as eleições em 2009.Não foi assim. Convencidos de que seja quem for o seu líder, o PSD perderá as eleições legislativas; receosos de dar a vitória a Luís Filipe Meneses; incapazes de consensualizar o apoio a um nome em concreto; ou por outra qualquer razão (de que falaremos adiante), o certo é que Marques Mendes já encaixou uma grande vitória, tudo indica que ganhará as eleições no partido e sem dúvida que garantiu a sua presença na linha de partida para as legislativas, o que não era óbvio se... não tivesse perdido as eleições em Lisboa!Uma grande vitória: o cavaquismo - a uma voz, seguindo o sinal de Alexandre Relvas - decidiu dar-lhe apoio. O aparelho (e a certeza de que se não o apoiarem não serão escolhidos para as legislativas e para as autárquicas daqui a dois anos) vai dar-lhe a vitória em Setembro. Fresquinho da vitória, ninguém o desalojará, a não ser quando for derrotado por Sócrates, o que ele já sabia, mas se o primeiro--ministro se imolar pelo fogo, emigrar para Bruxelas, for apanhado a roubar velhinhos, chamar nomes ao Papa ou fizer algo do género, até pode vir a ganhar as eleições.De tudo isto, o mais curioso é o apoio do cavaquismo institucional, que, em minha opinião, se não baseia apenas nem sobretudo no medo da vitória de Meneses. É que esse receio só poderia basear-se na convicção de que o autarca de Gaia não ganharia a Sócrates, pois, se assim não fosse - se o receio fosse que ele ganhasse -, então é que o ilogicismo no PSD teria chegado a um grau quase perverso.Esse claro apoio a Mendes só tem uma justificação: Cavaco Silva não quer que José Socrates perca as eleições, ainda que lhe não desagrade que perca a maioria absoluta. O que se compreende: Cavaco Silva sabe que o país precisa de reformas; sabe que, se o PS falhar, nunca seria um PSD dividido e fragilizado, sem rei nem roque, sem rumo nem estratégia, que as faria; sabe que, se isso ocorresse, os portugueses se virariam para ele a pedir-lhe um governo presidencial.E Cavaco Silva sabe mais: convencido de que só ele pode garantir a estabilidade política - e pelo menos nesta conjuntura assim é -, está consciente de que, se Sócrates ganhar em 2009, as presidenciais de 2011 serão para si um passeio; mas se Sócrates as perder e o PSD voltasse ao poder, então cresceriam claramente as probabilidades de uma aliança de esquerda para as presidenciais que pudesse aspirar a uma vitória. E então, como resultado disso, as condições para reformas desapareceriam, pois, para ganhar em 2011, neste cenário de vitória do PSD, até o Presidente teria de virar à esquerda.Por isso, e só por isso, é que os cavaquistas - interpretando o pensamento presidencial ou ouvindo-o - se apressaram a apoiar Marques Mendes. Fizeram-no agora como o fariam daqui a um ano, se Marques Mendes não tivesse antecipado o calendário eleitoral. Nenhum deles pensa noutra coisa que não seja em preparar a sucessão do líder do PSD depois de este ser derrotado (sendo ou não trucidado) pelo primeiro-ministro. Todos querem agora um candidato fraco.Percebe-se, mas não pode deixar de se lamentar. A democracia exige alternância potencial e não que a oposição queira perder as eleições. O PSD nasceu como partido do "porque sim" e está transformado num partido do "porque não". Não é saudável que todos os "laranjinhas" com que me cruzo achem que Marques Mendes não serve, que Meneses é um perigoso populista a deter a todo o custo e que, apesar disso, se resignem a este estado de coisas. Ou talvez seja compreensível. O PSD está moribundo, e apenas vai fazendo - numa espécie de espasmos cadavéricos - movimentos que, de longe, parecem sinais de vida.

segunda-feira, julho 2

Moralizar a política



A campanha no sentido da instrumentalização da opinião pública contra as práticas de gestão deste governo, está a ser exercida em várias frentes. Chego à conclusão de que o caso é mais grave do que se possa pensar. Sectores como o da comunicação social - que se pretende seja imparcial e se limite a veicular a notícia sem dela fazer uso próprio - e instituições públicas sob tutela do poder central, tudo têm feito para desmerecer a política e os políticos, tendo agora optado pela “deslocalização” dos confrontos de bastidores para a praça pública. Inclusivamente, aqueles que eu me permito designar de livre-pensadores, tecnicamente referenciados como “opinion makers”, arautos de uma moralidade que se metamorfoseia segundo as conveniências, decidiram secundar os pontos de vista de uma oposição unida em visível celeuma, pela defesa da soberania de direitos constitucionais que, na sua óptica, passam à frente de outros direitos fundamentais, também inscritos na Constituição, que se prende com o direito que tem o cidadão de poder subsistir condignamente dentro do seu próprio país.
Faz todo o sentido a tomada de posição do governo convergindo com a necessidade que se afigura premente em moralizar a política, através da aplicação de medidas punitivas contra os pólos que projectam a instabilidade dentro do próprio aparelho da administração pública. Como diz Marques Mendes, “o Estado é de todos”. No entanto, o corpo de funcionários representativo desta instituição pública de poderes autónomos, rege-se por directivas que emanam do poder central, e, por conseguinte, deverá pautar-se por normas rígidas de conduta e não fazer das repartições públicas a extensão da sua casa ou a sede dos trabalhos da Comissão Política de uma qualquer secção partidária afecta à oposição.

quinta-feira, junho 21

A construção do novo aeroporto - O "case study" da actualidade portuguesa


A construção de um novo aeroporto será sempre uma obra emblemática de uma legislatura e, decerto, garantirá o mandato subsequente do governo que mandar edificar esta infra-estrutura. E, é basicamente esta questão essencial, que tem alimentado toda a polémica proveniente dos vários sectores da sociedade, que se opõem à construção do novo aeroporto internacional na Ota.
A estrutura da sociedade portuguesa está assente em pilares de conveniências afectos aos lobbies, às clientelas, aos múltiplos interesses corporativos, todos eles dependentes, quer directa ou indirectamente, do aparelho institucional do Estado. Por isso, qualquer propósito reformista, qualquer decisão que venha a ser tomada pelo governo, susceptível de abalar essa estrutura, encontrará sempre a maior das contestações, ao que se lhe seguirá o back up das instituições politico-partidárias igualmente envolvidas nesse triângulo de influências, constituído pelos politicos, pelos partidos e pelos grupos de pressão que representam a sociedade civil.
É risível o paradigma da argumentação que emerge das hostes politico-partidárias da oposição contra a construção do novo aeroporto na Ota, cujo epicentro é, como não poderia deixar de ser, num país a debater-se com uma carência de meios profunda e generalizada, o avultado investimento envolvido na implementação desse equipamento aeroportuário. Apesar de a realidade dos factos demonstrar que eles próprios já autorizaram a elaboração e o pagamento de milhões em estudos durante a vigência dos seus próprios ministérios, a desfaçatez e o cinismo não conhecem fronteiras, são imunes à própria ética que aconselha racionalidade e bom senso.
Para além de tudo isto, apercebemo-nos da falta de visão estratégica de que sofre a maior parte dos nossos políticos, em clara dissonância com o espírito que aponta para a inevitabilidade da reforma do actual modelo institucional, que acompanha a natural evolução da sociedade e que resulta de uma nova realidade imposta pela livre circulação de pessoas e bens num espaço alargado, materializado pela união europeia dos estados, do subsequente fenómeno social da multiculturalidade e de uma nova ordem económica protagonizada pela semântica da globalização.

sábado, junho 16

Um exemplo de um Momento Chávez



…porque nos tornámos, realmente, num país de bananas onde cada vez menos fazem frente ao candidato a autocrata que manda neste canto da Europa. País onde se dobra a espinha, se mendigam benesses, se calam opiniões, se vive acobardado, se justifica tudo remetendo não para a inteligência, mas para as conveniências.”
Do editorial do Público de 15.06, assinado por José Manuel Fernandes

O desespero de José Manuel Fernandes na luta pela sobrevivência do jornal onde trabalha, face à pressão que deve estar a ser alvo por parte da sua entidade patronal, o grupo Sonae, que não viu viabilizada a OPA à Portugal Telecom e cuja culpa atribui ao governo, é tanto que o leva a escrever estas palavras, as mesmas que eventualmente justificariam a atitude do governo se tivesse exercido o seu poder de influência para que a OPA da Sonae à PT resultasse num êxito.
Que a senhora em foco no seu artigo roça alguma boçalidade, é verdade. Que utilizou critérios bastante discutíveis que vieram a servir de base à instauração de um processo disciplinar, também é verdade. Mas, convenhamos, demitir a senhora em questão, que conduzida por um excesso de zelo ousou ofender a dignidade de um seu subalterno, instaurando-lhe um processo disciplinar, e pôr em causa um dos princípios basilares da democracia representativa, o da liberdade de expressão, mesmo que traduzida em ofensas aos nossos governantes, isso também é demais! Uma cedência desse tipo por parte do governo, configuraria uma manifesta atitude de fragilidade. E um governo fragilizado perante os cidadãos, perante os seus eleitores, é um governo que não consegue pôr em prática a política de reformas a que se propôs e que consta do seu programa de governo. Pois, é que existem pessoas que não convivem bem com a estabilidade política e muito menos com a cooperação estratégica.
Mas, eu, parafraseando o povo, vou "dar-lhe um desconto", pelos muitos e bons artigos com que ele já nos brindou ao longo da sua carreira jornalística.

quinta-feira, junho 14

Playing violin...



Ontem, o programa Quadratura do Circulo transmitido pela Sic Notícias foi fértil em nonsense q.b. Fez, sobretudo, falta o comentador que habitualmente costuma exercer o contraditório, o Dr. Jorge Coelho.
António Lobo Xavier ali representante da franja do espectro político-partidário da direita (neo-conservadora ou liberal?), não contribuiu em nada para a seriedade da imagem do seu partido, pela sua posição de defensor público - já para não falar do privado: associativismo a quanto obrigas! - de um dos dirigentes desportivos que mais polémica tem gerado no meio futebolístico português, pelas suas práticas alegadamente envoltas num cenário de corrupção activa, cujos contornos são em tudo semelhantes e nos fazem lembrar a máfia napolitana, ensaiada para televisão na versão americana, mais actualizada, pela magistral série de ficção de Os Sopranos.
Existem no seio do PSD militantes que vão ficar na história pelas acções corajosas que empreenderam durante o exercício da sua vida pública activa, e um deles é o Dr. Rui Rio que, para além de ter conseguido a proeza de ser eleito presidente de uma Câmara Municipal, anteriormente com fortes e visíveis ligações ao mundo do futebol local, mesmo sendo conhecida a sua posição de neutralidade e distanciamento em relação à coabitação entre estas duas grandes áreas de poder, conseguiu desfazer e erradicar essa aliança, assim, promovendo uma gestão camarária assente na separação de poderes, próprio de um regime democrático que se preza.
Numa outra vertente daquela transmissão televisiva, exigiu-se a demissão do actual ministro das obras públicas porque ousou estabelecer um corte na frequência da onda que vinha alimentando a polémica gerada pelo loby anti-Ota, sobre a localização do novo aeroporto internacional. Mas este é tema para um próximo post.


segunda-feira, junho 11

Tratado Constitucional Europeu

Tenho em mente as últimas eleições para o parlamento europeu. Recordo-me do lavar de roupa suja que rodeou a campanha dos candidatos cabeça-de-lista pelos partidos socialista e social-democrata. Do fatídico incidente que envolveu a morte de Sousa Franco, vitima de um verdadeiro arrastão entre facções político-partidárias, para o qual não estava física e emocionalmente preparado.
Foi uma campanha vergonhosa a toda a prova. Os debates que podiam ter sido realizados para esclarecer a opinião pública sobre a instituição união europeia e as implicações da integração do nosso país sob o domínio desse hemisfério político, à semelhança do que aconteceu com a nossa vizinha Espanha, em que os partidos se juntavam em tertúlia nos debates televisivos, o que se passou entre nós foi a disputa partidária, até à exaustão, pelos poucos lugares que nos estavam destinados. A consequência dessa menoridade política foi o elevado índice de abstenção com o qual os eleitores se dignaram brindar as nossas instituições politico-partidárias.
É neste clima de verdadeira inépcia política, em que a maior parte dos cidadãos, não está minimamente preparada, por falta de conhecimento da matéria, para poder opinar sobre o que quer que seja que envolva o nosso país num regime de observância de normas comunitariamente pré-estabelecidas, do plano jurídico, económico e social, que os nossos políticos, nomeadamente os da oposição, pretendem referendar aquele que irá ser o futuro Tratado (mini-Tratado ou Tratado simplificado) Constitucional Europeu.
A cimeira do G8 acabou por dar lugar a um entendimento particular entre os três principais actores da cena política europeia - Angela Merkel, Blair e Sarkosy – no sentido da ratificação de um tratado por via parlamentar como opção ao recurso ao referendo, destinado a potenciar a reforma das instituições da União Europeia no seguimento do seu rápido alargamento. No contexto europeu, veio a verificar-se eficaz a eleição de Sarkosy, agora com força acrescida pela vitória expressiva do seu partido nas eleições legislativas, como a chave para a resolução do impasse provocado pela França ao vetar o tratado em referendo.
Em Portugal, neste momento para a oposição, a realização do referendo transformou-se numa questão essencial, consagrando-se como questão acessória as necessárias e urgentes medidas a tomar com vista ao crescimento económico que se deseja rápido e substantivo, antes que todos nós pereçamos desta doença endémica que nos corrói as entranhas e nos atirará para o mais profundo dos fossos de que há memória na nossa história do passado recente.


domingo, maio 27

O deserto do Poceirão



Não há dúvida de que a política desgasta. Desgasta os governantes, desgasta a oposição, desgasta os cidadãos, os próprios meios de comunicação já se encontram em avançado estado de desgaste, posto que já passaram a considerar assunto de “prime time” as observações infelizes, feitas pelo Sr. Ministro das Obras Públicas, e que vieram substituir o até agora tido como “tema de capa”, o desaparecimento da pequena Madeleine.
O dossier da construção do novo aeroporto na Ota está a tornar-se num tema altamente polémico e socialmente fracturante, em que as posições dos que defendem a construção naquele sítio e as dos que se lhe opõem, estão de tal forma extremadas que, caminhamos a passos largos para que o diferendo venha a ser “mediado” pela intervenção das forças policiais, obrigadas que se verão a pôr na ordem os partidos da oposição e o partido do governo. É claro que este é um quadro hipotético, inverosímil num país que faz parte da União Europeia, que se pretende actue civilizadamente perante os seus cidadãos. Mas, não estaremos nós mais próximos de um Brasil ou de uma Venezuela, do que de uma Alemanha, de uma Grã-Bretanha ou até mesmo de uma Espanha?
Num país civilizado, este dossier seria debatido dentro dos gabinetes, as informações sobre a sua evolução, veiculadas pelos respectivos gabinetes de imprensa. O Sr. Presidente da República não teria que ser sujeito a fortes pressões no sentido de intervir publicamente com a sua opinião - aqui fazendo-se substituir à tal força policial - posto que esta é uma matéria da competência do governo, não sendo um assunto de Estado, e compete ao governo tomar a decisão final. É preciso que a oposição respeite a maioria dos votos dos cidadãos que sufragaram o programa do governo que se encontra no exercício das suas funções. Os interesses dos partidos, de per si, não se podem sobrepor ao interesse nacional que se prende com a premência da construção de um novo aeroporto, e o governo, por sua vez, beneficiando de uma poderosa base de sustentação (que se prende com o prejuízo financeiro traduzido na quebra de receitas, pela impossibilidade prática de companhias aéreas como as de low cost, hoje protagonistas de grande parte do afluxo do tráfego aéreo internacional, não poderem aterrar em Lisboa por razões logísticas) não a utiliza, preferindo alimentar trocadilhos, traduzindo em jogos de palavras o seu patente cansaço motivado por um país em estado de evidente colapso humanitário e cultural.